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Mulheres que amam demais

Martha Medeiros

De tempos em tempos surgem novos agrupamentos de pessoas que sofrem de uma mesma síndrome. Já houve os compulsivos por sexo, agora estão em evidência as mulheres que amam demais, que possuem até associações e grupos de encontros – MADA (Mulheres que Amam Demais Anônimas) – para tentar resolver o problema.

Amar demais é ruim? Acho que o amor não tem medida, não tem limite e nunca é ruim. A síndrome está mal batizada: deveria ser chamada de “Mulheres que se Amam Pouco”. Porque se a gente está sufocando o outro é porque está sobrando pouco afeto pra nós mesmos.

Qualquer relação de dependência crônica é doentia. É caso para tratamento, e também para reflexão. Como pode alguém sentir um ciúme paralisante, que a impede de viver sua própria vida? Como podemos querer controlar a vida do outro se não conseguimos controlar nem mesmo nossa própria ansiedade? Acho que nada disso tem a ver com amar demais, e sim com amar de menos. São pessoas com baixa autoestima. Sem se gostar, a gente se sente um trapo, e o amor que sentem por nós é sempre insuficiente.

Não sei como o problema começa, mas outro dia, lendo uma matéria voltada para adolescentes, descobri como ele se incrementa. A reportagem era delicadamente intitulada “Como descobrir se você é chifrada”. E dava as seguintes sugestões para as garotas: seguir o namorado quando ele sair sozinho, criar um nome fictício no Hotmail e se corresponder pela internet com o namorado anonimamente, dizer para o melhor amigo do namorado que ele admitiu que a traía pra ver se o amigo confirma, fazer-se de amiga da ex-namorada dele para ver se ela conta coisas sobre o passado, e por aí vai. Ou seja, um manual de como ser manipuladora, mentirosa e invasiva. Estas garotas amanhã serão as esposas que xeretam bolsos e colarinhos, e que integrarão o grupo das que “amam demais”.

Respeito deficiências psicológicas, que aliás todos temos, mas não passo a mão na cabeça de ninguém quando a doença passe a se chamar burrice. E também não vou dizer que a maturidade cura tudo porque não cura. É possível ter autoestima aos 16 anos e não tê-la nunca, nem aos 70 anos. O que fazer para controlar essa esquizofrenia emocional? Tratar-se e não seguir esses comportamentos padrões divulgados por revistas e novelas. O amor não precisa ser difícil, caótico e doentio. Muitas mulheres intitulam-se vítimas do amor e sentem com isso um prazer secreto. Relacionamentos fáceis não lhes interessam, relacionamentos fáceis não têm graça, não geram poemas nem piedade. Então sofrem. Mas não venham dizer que amam demais. Amam errado.


Domingo, 4 de maio de 2003.



Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.